#RESENHA – PANTERA NEGRA – QUAL FOI A GRANDE LIÇÃO?

Por que é mais fácil falar sobre algo que não gostamos do que algo que gostamos muito?
Contém spoilers leves.
Quando penso em Pantera Negra a primeira imagem que vem em minha mente é precisamente essa:
Lembro das cores das roupas da crianças, da satisfação no rosto dos adultos e dos meninos e meninas em igual empolgação. Ainda sinto a mesma emoção hoje.
…ATÉ AQUI
Uma grande preocupação de quem conhecia mais os quadrinhos era se Wakanda, nação africana onde se passa a história de Pantera Negra, iria aparecer ou se a história aconteceria nos Estados Unidos, como de costume. Aliás, Pantera Negra começou a mostrar sua importância muito antes de estrear seu filme solo, desde o anúncio da participação do herói em Guerra Civil.
Foi então que começaram a vir as primeiras imagens, os trailers e os pôsters. Então a ficha caiu. Não seria apenas um filme de super-herói.
Mas, por que um filme “pop” é tão importante? Filmes com apelo maior ao público, como blockbusters ou os “recentes” filmes de super-herói são importantes pela alcance que possuem. São espelhos. Refletem um momento da sociedade e o que ela espera que seja discutido. Sabemos que dificilmente serão tão profundos quanto os filmes “cults” escondidos nos canais pagos de TV ou nas salas do Itaú Cinema, no entanto eles atingirão em cheio as massas, que é o público que em geral não tem acesso ao que é mais fora do circuito dos cinemas de rede e com isso podem debater assuntos que antes se concentravam em nichos específicos. Faz pessoas conhecerem histórias e detalhes de culturas como essas.
Sobre os filmes de herói particularmente, ou filmes de ação no geral, o que gostamos é que aqueles personagens viram símbolos. Algo que gostaríamos de ser. Quase todos gostam de se sentir poderosos através de uma imagem fictícia, afinal, quem nunca invejou Hulk por ganhar superforça quando é provocado?
O problema é que alguns subestimaram o que faria sucesso e o que não faria. Nisso, muitas grandes histórias acabaram sem espaço e ótimos personagens, renegados a meros interesses românticos, sem profundidade, objetificados, ajudantes ou vilões.
Então com o tempo (e a vontade de ganhar mais dinheiro), as empresas foram ouvindo o público que, gradativamente foi respondendo e exigindo mais quantidade e melhor qualidade. Hoje, caminhando para um cenário que parece positivo.
Temos o filme da Mulher Maravilha e agora Pantera Negra. Muitos pedem que seja feito o filme da Miss Marvel (menina muçulmana que ganha poderes) e Homem Aranha com Miles Morales como protagonista (filho de pai americano e mãe porto-riquenha que substitui Peter Parker).
Um homem nunca sentirá o que uma mulher sentiu ao assistir Mulher Maravilha e como essa representatividade importou, da mesma forma que foi Pantera Negra para a comunidade negra.
Ainda que possua imenso caráter político, Pantera Negra ainda é uma história de herói com muito dinheiro investido, porrada, efeitos especiais, naves, figurinos incríveis e um herói poderoso, respeitado e cheio de compaixão e moral. Um filme blockbuster bem feito e digno da cultura pop, como já deveria existir a tempos.
O FILME.
[TRAILER]
Todos já lemos e vimos muito sobre o filme. Até quem não assistiu (não deixe de ir!) já tem uma pré-opinião formada, porém um filme que trouxe tanto debate antes mesmo da estreia e até agora está sendo tão comentado, é porque deixou diversas sementinhas para serem espalhadas por aí e vários pontos de vista para serem analisados.
A história central em si não é complexa: T’Challa (Chadwick Boseman), filho do antigo rei e Pantera Negra, agora se prepara para assumir o manto do herói e o trono de Wakanda quando o mercenário Ulysses Klaue (Andy Serkis)
reaparece tentando vender o vibranium (metal fictício dito como um dos mais resistentes do planeta) roubado há muito tempo do território. É então que na missão para captura-lo eles conhecem Killmonger (Michael B. Jordan) que se apresenta como candidato ao trono e possui ideias muito diferentes de como poderia aproveitar o potencial de Wakanda.
Wakanda é um reino escondido dentro do continente africano. Por conta disso, escapou do colonialismo e teve a oportunidade de se desenvolver naturalmente. Sem interferência de outras culturas. Com isso, se tornou um lugar rico e próspero, diferente do que geralmente é mostrado com relação à África.
O visual criado para estabelecer Wakanda nos cinemas foi totalmente inspirado em tribos africanas, como Mursi e Surma, de onde foram tiradas os “pratos de lábios”, e as cicatrizes no corpo de Killmonger.
Essa fidelidade e cuidado para estabelecer o visual de Wakanda é fundamental para mostrar para as pessoas que só tem referencias do continente pelas manchetes de pobreza (apesar de já ter sido comprovado por antropólogos que o ser humano surgiu na África ), que existe muito mais cultura, cor e riqueza na região do que grande parte pensa.
Desconhecimento e subestimação que, inclusive, é abordado no filme.
Tamanho foi o cuidado que existiu para que esse filme levasse com qualidade a mensagem que queria passar que elenco, direção, roteiro e trilha sonora são formados por negros.
Embora falhe um pouco nos efeitos especiais e nas coreografias de luta, o filme acerta na construção da cidade (eu só fiquei querendo ver o lado mais popular de Wakanda) e na direção de arte. Figurino e maquiagem estão perfeitos. A cultura dos rituais, danças e gestos igualmente bem apresentados. Todos os cabelos e roupas para diferenciar as tribos são lindíssimos e o cuidado em estabelecer o sotaque dos atores, criada com base no Xhosa, um dos idiomas
oficiais da África do Sul, foi o toque final.
“Caso eu usasse um sotaque europeu, eu seria conivente com a ideia supremacista branca do que é educação e o que ser da família real é. Não se trata apenas de correr e brigar. Ele é o futuro da nação. E já quem ele é comandante do país, ele tem que falar para o seu povo. Ele tem que animar o povo. E não tinha como eu falar com meu povo, que nunca foi conquistado pelos europeus, com um sotaque europeu”. Disse Chadwick em entrevista.
Sempre é importante num filme de herói clássico mostrar os valores que fazem com que aquele personagem seja digno de ser o alvo de nossas torcidas. Geralmente para isso o que fazem é mostrar logo de início a fragilidade do
personagem e dar a ele um vilão daqueles “mau que nem pica-pau”, ou seja, sem muita história e que faz maldades porque gosta e pronto.
Nada disso é seguido aqui.
O filme se mostra corajoso ao apontar falhas dos mocinhos e criar razões sólidas para as motivações do vilão, que acaba tendo muito mais nossa simpatia do que normalmente aconteceria.  Tudo isso surpreende o público que se sente grato por não ser tratado como bobo numa simples historia de “bem X mal”, mas sim num conflito real e complexo como o mundo em que vivemos hoje.
OS PERSONAGENS;
É na força de seus personagens que Pantera Negra encontra o verdadeiro poder.
O debate sobre racismo está implantado nas veias desse roteiro assim como todas as consequências dos anos de sofrimento de quem sente esse mal e como ele contagia e indigna mesmo os que estão distantes, mas carregam a mesma cor de pele. A empatia que esses personagens causam por conta de suas crenças são tão grandes que nos cativam mesmo com pouco tempo de tela.
Eficaz em não limitar personagens apenas ao que eles acreditam, a historia mostra pontos de vista muito semelhantes mesmo entre lados diferentes e cria muitos debates fora da tela:
“Na realidade, eu (personagem do Pantera Negra) sou o inimigo. É o inimigo que sempre conheci. É o poder. É ter o privilégio. Ele [Killmonger] é afroamericano e, portanto, está tentando encontrar uma conexão com suas origens na África. Você vê essa busca no filme. Tem um pouco de Ryan [Coogler, diretor do filme] em Killmonger e eu me sinto da mesma forma. Não sei se nós, como afroamericanos, aceitaríamos T’Challa como nosso herói se ele não passasse por Killmonger. Porque Killmonger passou pelas nossas dificuldades e
eu, T’Challa, não”. Chadwick em entrevista.
Porém, a representatividade do filme não para apenas aí. Ouso dizer que Pantera Negra é o filme mais feminista da Marvel. Sabe aquela história que por trás de um homem vem uma grande mulher? Pois em Pantera o que vemos são muitas mulheres à frente do homem.
Se o destaque vai para a Okoye (vivida pela atriz Danai “Michonne” Gurira) e sua presença poderosa como a principal protetora do rei e líder das Dora Milaje, que farão todas as mulheres se sentirem empoderadas, ainda assim sua personagem não se limita a figura masculinizada, tendo um companheiro amoroso na trama mas que não a impede de cumprir seu dever.
Ela é a personagem que dá voz a dois momentos quando, com quase toda certeza, a maioria das mulheres já se sentiu no lugar. O primeiro relativo ao padrão de beleza estabelecido, onde ela reclama de um adereço que foi obrigada a usar para não chamar a atenção por seu cabelo (ou falta de) e o segundo ilustrado abaixo:
Sabe aquela irritação que mulheres são tratadas como invisíveis perante outro homem? Se inspirem meninas.
A atriz vencedora do Oscar Lupita Nyong, dá vida para à Nakia, que se mostra muito sensível as dores de outros povos e gostaria que Wakanda pudesse ser mais solidário com eles. Embora seja o interesse amoroso do herói, Nakia coloca suas crenças em primeiro lugar.
Já Shuri (Letitia Wright) é a brilhante cientista por trás da tecnologia que protege seu povo. O carisma e bom humor da personagem, junto com sua juventude, não apenas fortalece o caráter familiar do protagonista e o papel feminino da trama, mas só o fato de a colocarem como a principal cientista por trás de toda tecnologia presente em Wakanda, é um dos maiores símbolos de representatividade para meninas assistindo ao filme.
Fechando o time feminino, Ramonda (Angela Bassett) é a mãe de T’Challa e rainha de Wakanda. Conselheira de seu filho, ainda que sentindo o luto pela morte do marido, Ramonda não esquece o símbolo que é como mulher e representante daquela nação. Líder nata e com a experiência dos anos como rainha, não hesita em se colocar a frente para buscar uma solução em momentos de conflito.
Todas mulheres com personalidades e pontos de vista divergentes, o que as enriquece e as torna reais. As mulheres de Wakanda são solidárias entre si, se respeitam mesmo entre suas diferenças e nunca deixam de expor suas ideias mesmo para homens que estão acima na hierarquia.
Aliás, o filme passa tranquilamente no Teste de Bechdel (teste onde o objetivo é analisar filmes com personagens femininas que falem entre si de assuntos que não sejam homens) e seus trajes conseguem demonstrar poder sem sexualizar seus corpos e suas armas são todas mortais tanto quanto são belas.
A diversidade de origem dos atores de descendência direta africana também é importante para apresentar esse mundo criado para os personagens:
“O sotaque de Daniel Kaluuya é diferente do sotaque de Letitia Wright mesmo que eles sejam ingleses porque os pais de Daniel são de Uganda e os de Letitia são da Guiana […] Sabe, você tem todos esses sotaques primários surgindo sobre outro sotaque, então você realmente sente a distinção natural que tem a ver com o fato de existirem várias tribos em Wakanda. Apesar de estarmos unidos e utilizando o Xhosa como base, essa diferença aconteceu naturalmente e achei que isso é muito bacana”. Beth McGuire, técnica de dialetos do filme.
Os únicos personagens mais deslocados na história são Ulysses Klaue e Agente Ross (Martin Freeman) por pouco terem a realmente oferecer para a trama. Klaue é o ponta-pé que move a história e Ross, apesar de representar o governo americano, parece ter sido inserido só para dizer “olha, um branco bonzinho” e guiar o espectador que não conhece os quadrinhos a entender os mistérios de como funciona a nação de Wakanda.
Finalizando, T’Challa e Killmonger representam personagens com passados e visões distintas, mas válidas, e que levam para fora dos cinemas muito sobre ativismo negro e que trazem a tona muitos debates sobre as visões de Malcolm X e Martin Luther King sobre o tema, ainda que o filme vá por caminhos diferentes.
T’Challa é bondoso, no entanto foi criado em volta de uma série de privilégios por estar numa terra protegida e por ser da realeza de Wakanda. Ele sabe o que se passa no mundo lá fora mas nunca realmente sentiu na pele.
Por apresentar um passado e motivações tão compreensíveis, independente do carisma do ator M. B. Jordan, Killmonger conquista a empatia do público e acaba se tornando muito mais um anti-herói do que o vilão. E se é muito compreensível quem se identifique com suas convicções, é importante lembrar que “São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades”, e Killmonger faz escolhas questionáveis.
Porém, é a vinda do “vilão” que faz com que T’Challa reflita e se abra para o desconhecido, enxergando melhor um caminho para o futuro. Killmonger se torna a kriptonita do herói, não por deixa-lo fraco, mas por deixa-lo mais humano.
CONSIDERAÇÕES FINAIS…
O que fica marcado pelo filme é a quantidade de respeito que demonstrou não somente com os quadrinhos, mas com a história que quis retratar.
Previsões para um Pantera Negra 2 ainda são muito incertos. O final foi lindo e me fez chorar até a última cena pós-créditos. Uma frase marcante, apropriada e digna para um personagem tão bom e que eu espero que a Marvel traga de novo (por favor).  Imagine as possibilidades com os dois trabalhando juntos?
Atual no cenário político mundial, a primeira cena pós-créditos (sim, são duas, se preparem) é um tapa na cara da política americana, o que faz de Pantera Negra um filme corajoso, expressivo e inclusivo, que não tem medo de apontar o dedo na cara e dizer várias verdades, que já são ditas há tempos. Ainda assim é infinitamente humano e otimista.
Ao final, o que me ficou foi o sentimento de gratidão por um filme tão bom e honesto nos ideais e causas que defende e certa raiva por tantas histórias assim que já deveriam ter sido contatas e não tiveram espaço ou interesse. Por isso ainda me engasga as inúmeras tentativas de pessoas dizerem que estavam dando importância demais para esse filme.
Assim como é importante como representação para a comunidade negra, é também de igual importância para que os brancos tenham consciência de seu papel histórico e como ainda são parte de um ciclo que se repete e também, de imensa relevância sobre representatividade feminina. Um filme necessário para todos, como a cultura pop precisava.
Obrigada por fazer tantos desejarem que Wakanda fosse real. Que venham muitos outros filmes assim.
DICAS:
Para você que gostou de molhar os pés nesse embate de ideias e culturas, que tal procurar se aprofundar agora? É para isso que a cultura pop serve.
Uma historiadora somali chamada Waris Duale listou todas as referencias que aparecem no filme, em seu twitter, e os posts foram traduzidos pela página “Um Filme Me Disse”, e você encontra aqui. //www.facebook.com/umfilmemedisse/posts/545759442447254
As listas de quadrinhos de Pantera Negra para ler é enorme mas recomendaria “Uma nação sob meus pés”, escrita pelo ativista Ta- Nehisi Coates, que com sua visão de jornalista, filho de um pai veterano de guerra e integrante do partido dos Panteras Negras, trás uma história mais real e cheia de questionamentos, além de apresentar muito bem a cultural de Wakanda.
“Encontrei nas HQs uma válvula de escape para uma outra realidade na qual os fracos e zoados podiam transformar seus defeitos em poderes fantásticos”, explica Coates. “Claro que esta é a realização do garoto de 9 anos em mim. Lendo os gibis do Homem-Aranha quando era criança, eu não apenas curtia a aventura do mês, mas pensava seriamente na coisa de ‘com grandes poderes vêm grandes responsabilidades’.
Para conhecer mais sobre a realidade por trás de tudo isso, é fundamental ler artigos ou documentários sobre a história do continente africano, seu passado e presente e das tribos reais que inspiraram a produção do filme. Alberto da Costa e Silva é um dos principais africanólogos brasileiros e quando iniciou suas pesquisas pelo tema ouviu “Por que você, um diplomata, um homem tão letrado, não vai estudar a Grécia?”.
Para Alberto, com 84 anos e autor de A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses e A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700, é importante que as pessoas saibam que a história da África é tão bonita quanto a da Grécia.
Biografias ou filmes inspirados na vida de Malcolm X, Martin Luther King e movimento dos Panteras Negras também são interessantes para conhecer mais o ativismo negro e seus diferentes pontos de vista.
Agora é com você.
Wakanda Forever.

 

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